“False Friends are delicious”

Muito se falou, e muita tinta correu por esse mundo fora sobre a gaffe do presidente francês Emmanuel Macron ao elogiar a esposa do primeiro-ministro australiano aquando da sua visita àquele país.

A globalização e o fluxo crescente de pessoas que circulam pelo mundo inteiro, teve como uma de muitas consequências, o facto de o domínio de outros idiomas deixar de ser um fator diferenciador, para se tornar numa capacidade/habilidade indispensável a qualquer indivíduo, quer seja na sua vida pessoal, quer na sua vida profissional.

Nesse sentido, a Royal School of Languages tem orgulhosamente contribuído para uma cada vez maior percentagem de jovens e adultos (não só em Portugal, mas também em Inglaterra e no mundo através da Languages United) que têm essa capacidade como adquirida (e digamos-sem sermos presunçosos-bem adquirida), não só no inglês, mas também em muitos outros idiomas como são os casos do alemão, francês, espanhol, italiano etc.
A aquisição e aprendizagem de uma língua (quando não é aprendida de forma natural como é o caso de uma língua materna) pode passar por um conjunto de processos e métodos que seria fastidioso enumerar neste texto. Contudo, para muitos aprendentes de uma língua estrangeira, muito do apoio que têm, ou melhor de que se servem, é precisamente a sua língua materna. Apesar de compreensível, este apoio encerra em si um conjunto de situações que se podem revelar problemáticas, e portanto contrárias à intenção inicial do aprendente.

É aqui que entra a situação que levou à gaffe de Emmanuel Macron, ou seja, os chamados “false friends”, ou em português os falsos cognatos (ou falsos amigos) – palavras que possuem ortografia (e às vezes até mesmo a sonoridade) semelhante em dois idiomas, mas cujo significado é totalmente diferente do que nos induz a pensar. Se por vezes as semelhanças linguísticas/fonéticas de certos vocábulos presentes em duas línguas distintas podem eventualmente satisfazer as necessidades comunicativas mais básicas do aprendente, os mesmos vocábulos podem levar a interpretar como uma similaridade aquilo que de facto não o é, e assim originar um conjunto de interferências de comunicação e até erros de tradução, para além de uma crença falsa e errada de domínio linguístico de um idioma, que em casos mais extremos poderá inclusive resultar na fossilização de uma interlíngua.

Esta, por vezes semelhança entre as línguas, não se limita unicamente ao âmbito semântico; como tal, os falsos amigos não interferem apenas no significado, mas em todos os aspetos da língua. São vários os exemplos deste tipo de vocábulos que resultam em “não comunicação” e falando apenas entre a língua portuguesa e inglesa, enumero aqui só alguns exemplos mais comuns: Actually- significa na verdade, mas que muitos aprendentes acham ser atualmente; Assist – significa ajudar ou dar apoio, mas que muitos aprendentes acham ser assistir ou ver; Library – significa biblioteca, mas que muitos aprendentes acham ser livraria; Lunch – significa almoço, mas que muitos aprendentes acham ser lanche; Push – significa empurrar, mas que muitos aprendentes acham ser puxar; e muitos mais…
Aliás este efeito de “contaminação” não se limita aos vocábulos, e é muito fácil encontrar, principalmente na tradução, interferências na comunicação que resultam de contextos culturais, sociais e antropológicos diferentes que acompanham e estão na génese de qualquer língua. Se numa primeira, empírica, mais comum e muito superficial abordagem a um texto que necessite de tradução tudo pareça ser um processo simples de tradução de um conjunto de palavras/vocábulos de um língua para outra, tal não é verdade, uma vez que por mais simples, específico e fixo que um texto possa ser, todo ele tem as suas marcas e identificações culturais que têm de ser tidas e levadas em conta. Estas marcas culturais são elementos que distinguem uma língua fonte de uma língua alvo. Tais elementos são: expressões idiomáticas, metáforas, jogos de palavras, referências de humor, sistemas de medição, códigos e regimentos, que são pertença de uma determinada cultura e não de outra. Estes elementos influenciam a produção de um texto, e revelam-se como momentos importantes em que o tradutor precisa de fazer escolhas que são muito complicadas e difíceis de fazer.

A tradução é um espaço privilegiado de contacto entre culturas, e sempre que acontece esse processo, pelo menos dois sistemas linguísticos estão claramente em contacto, bem como todas as potenciais convenções e questões extratextuais envolvidas na produção e receção de textos fonte e textos alvo. Assim, é de extrema importância que ao fazer o seu trabalho, o tradutor tenha em consideração as interferências e os desafios que podem ocorrer devido a essa relação ténue entre códigos sociais e as línguas.

Nós, na Royal School of Languages sabemos da importância que é comunicar, mas comunicar bem e corretamente. A globalização e a liberdade de movimentos de pessoas e bens, a que hoje assistimos, precisa e tem como base uma comunicação correta e eficaz, seja ela a nível oral e individual, seja ela a nível escrito e profissional. Para nós a questão problemática dos falsos cognatos é vista como mais uma oportunidade que os nossos alunos têm de aprender, evoluir e de facto dominar um idioma, e as nossas traduções são feitas tendo por base todas as questões extratextuais que podem influir na tradução, pois os nossos profissionais nessa área são sempre nativos da língua para a qual traduzem.

Assim, se para muitos outros os falsos cognatos são um problema e podem dar uma grande dor de cabeça, para nós os “false friends are delicious”!

07 Mai 2018
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